Mensagem do Pe. Zezinho: Apenas um por cento
Às vezes, o dinheiro impede o raciocínio. As pessoas conseguem fazer as contas. O que não conseguem é libertar-se do seu faz-de-conta. Somos todo assim. Enquanto pobres, repartimos maravilhosamente bem. Assim que entra o primeiro dinheiro grosso, até o nosso 1% fica impossível de repartir. Explico-me e conto uma história para ilustrar.
Aconteceu num grupo de amigos, entre os quais alguns industriais, dois políticos e vários profissionais liberais. Celebrei a Missa e ficamos para conversas informais. Não podia ser diferente. Pintou o tema: pobreza. O que fazer pelas crianças de rua?
As idéias eram muitas, mas nenhuma concreta: ajudar os orfanatos, campanha para as mães pobres, aulas de corte e costura, aula disso e daquilo, cesta básica, melhores salários e assim por diante. Mas eram só idéias. Poucas achavam viável assumir aquilo. Arrecadariam algum dinheiro para, quem sabe, a Igreja ou algum centro com assistentes sociais e ajudariam ao menos parte da infância abandonada.
Foi quando joguei uma idéia e disse: "Ninguém de vocês é pobre. Aqui não há ninguém com menos de 500 mil reais no banco. Por que não abrem uma conta especial, de maneira que, a cada mês, 1% vá para o Projeto Apoio ao Pequeno Cidadão?" "Êpa, mas, aí, já são 12% ao ano..." refletiu alguém. "E daí? O que é para você, que tem 500 mil, dar 5 mil aos meninos pobres da cidade? Não vai ficar mais pobre por isso". Feitas as contas, um deles concluiu honestamente que teria de dar, mensalmente, 20 mil reais, e isto era demais. Retruquei que continuava a ser 1% do que ele tinha no banco. Votação secreta e o projeto foi descartado: envolveria dinheiro demais.
E assim, morreu no nascedouro o brilhante projeto de ajudar o pequeno cidadão com confecções, oficinas, escola profissional e coisa e tal, porque feitas as contas, seria dinheiro demais para dar e para começar uma instituição que poderia não dar certo.
Estavam brincando de caridadezinha. Enquanto fosse pouca coisa, todos ajudariam, mas 1% é muito dinheiro, quando se tem muito dinheiro. Se tivesse pedido apenas 1% de mil reais, teriam dado. Afinal, seriam só dez reais. O economês não fala a mesma linguagem da caridade: montanhas de dinheiro tiram qualquer perspectiva.



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