Mensagem do Pe. Zezinho: Catedral com telhado de vidro

Diante dos vidros da suave e bonita catedral de Brasília, um dos meus amigos, não crente e crítico severo da Igreja Católica, observou com ironia: - Veja como sua Igreja tem telhados de vidro!
Somos amigos, apesar das diferenças de conceitos. Lembrei-lhe que seu escritório de advogado e político também tinha uma enorme fachada de vidro. As mesmas pedras capazes de estilhaçar o telhado de Igreja da qual faço parte poderiam produzir igual devastação no seu partido, que também pretende influenciar este país. Aceitou minha resposta com um leve sorriso e perguntou-me se ainda valia a pena ser católico hoje. E arrematou:
- Afinal, a Igreja anda tão atacada, tão por baixo, perdendo adeptos, tão desafiada e tão descartada por milhões de fiéis que um dia nela se batizaram! Vale a pena continuar católico, numa Igreja que milhões estão deixando? Sua fé não se abala um pouquinho ao ver tudo o que anda acontecendo com a sua Igreja?
Sugeri que ele fizesse a mesma pergunta a todas as igrejas pentecostais ou evangélicas, aos judeus, aos muçulmanos, aos budistas, aos partidos políticos do mundo inteiro porque coisas desagradáveis andam acontecendo em todos esses círculos ilustres, onde nem sempre tudo é digno de aplauso e de elogios.
Mas respondi à sua pergunta:
-E claro que vale a pena! Hoje e sempre. Se for verdade que sou católico numa Igreja da qual, no meu país cerca de 15 milhões saíram, também sou membro de uma igreja na qual 130 milhões ficaram. Se nos últimos quinze anos 10% partiram, a maioria ficou. Perfazemos 74% da população. Mede-se uma lagoa pelos 90% de água que ainda tem e não pelos 10% que evaporaram ou vazaram para outras lagoas. Ela pode estar mais vazia, mas está longe de secar. Suas fontes não secaram. Quem tem fontes e história tem chance.
Mesmo sendo ele ateu, lembrei-lhe que não se é católico por ser fácil, mas por ser um chamado de Deus, um caminho de 20 séculos. E daí, se ele não crê em Deus e não se sente chamado? Eu creio e acho que Deus me quis católico! Quem não deseja mais ser católico, quem já deixou de o ser, ou quem nunca foi nem pretende ser, tem uma consciência. Viva dela e preste contas dos seus atos ao Deus com quem afirma dialogar, ou a si mesmo, caso não admita a existência de alguém maior. É o que os católicos também devem fazer. Todos os dias, enquanto viverem.
Mas orgulhem-se de sua fé os milhões que se sentem chamados a ser cristãos e dentro do cristianismo, crentes abrangentes, para todos, kat-houlou, católicos, com os acentos de doutrina, os dogmas e a longa história da sua Igreja, por sinal rica de conteúdo, de mártires, de santos e de homens e mulheres que deixaram marcas altamente positivas na História. Eu gosto de ser católico e nem por isso me acho mais do que os outros que gostam de ser de outras igrejas.
Lembrei-lhe que a primeira ironia veio dele por eu ser católico e não de mim a ele por ele ser ateu! Erros? É claro que não os nego! Houve! Tivemos erros e desvios, como também outras igrejas têm, tiveram e terão e certamente nós mesmos ainda temos e voltaremos a ter.
Como igrejas não são para anjos e sim para homens e mulheres que desejam, mas nem sempre conseguem ser santos, vai sempre haver exageros, desvios, erros, pecados e falsidades e mentiras dentro de todas as igrejas e de todos os grupos de crentes ou ateus que se organizarem para influenciar algum país.
Eu acabara de comprar e já começara a ler o livro de Luis Mir, intitulado Partido de Deus, Fé, Poder e Política. Bastante cáustico contra a Igreja católica no Brasil, o historiador opina, como ele mesmo diz nas primeiras páginas, que não há inocentes quando se escreve e quando se lê. Há perguntas feitas para balançar, livros escritos para analisar e outros, escritos para derrubar.
Pedras é o que alguns grupos têm atirado nos últimos tempos contra os nossos telhados. A intenção de muitos deles é nos acertar. É sinal de que há pessoas querendo que nossa Igreja perca, diminua, ou, segundo eles, se cale. Como a cidade está cheia de templos e agremiações com fachadas e telhados de vidro, há pedras em quantidade suficiente para todos. Por enquanto, estão mirando a Igreja Católica. Um dia mirarão o seu partido! Muitas delas vêm em forma de artigos de fundo, notícias de rádio, jornal e televisão, cenas de novelas ou livros que pretendem recontar a história desses últimos vinte séculos. Não se cresce impunemente!



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