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Ensinamentos
de Dom Orlando: O Papa e Gandhi
C. Berenstein no livro "Sua Santidade"
conta que quando o Papa João Paulo II visitou a Índia em
1986, rezando diante do túmulo de Gandhi em Nova Dehli, ficou longo
tempo tocando com sua mão a pedra da sepultura onde estão
escritos os sete pecados sociais da humanidade moderna: "Política
sem princípios; Riqueza sem trabalho; Prazer sem consciência;
Conhecimento sem caráter; Economia sem ética, Ciência
sem humanidade; Religião sem sacrifício".
1. Política sem princípios. Gandhi entendia muito bem de
política e de mística. Percebeu a falta de ética
na política e o desastre social que tal postura provoca. Os pilares
éticos da política são: a justiça, a verdade,
a liberdade e o amor. Uma política sem princípios éticos
transforma-se em disputa de interesses pessoais, oligarquias, corrupção,
fraudes, manipulação social.
2. Riqueza sem trabalho. O Sistema neoliberal reforça a pirâmide
social perversa onde os ricos se tornam cada vez mais ricos e pobres cada
vez mais pobres. A técnica e a informática desligadas dos
valores fortalecem o apartheid social onde muitos trabalham, mas a riqueza
fica nas mãos de poucos. Na cultura consumista, onde os filhinhos
de papai recebem tudo, sem trabalhar, está um dos maiores defeitos
da vida moderna, é o problema da riqueza sem trabalho. No Sistema
neoliberal a máquina tem prioridade sobre o homem, eis o pecado
estrutural denunciado em Puebla.
3. Prazer sem consciência. Ghandhi viveu por decisão pessoal
longos períodos de continência e castidade, porque tinha
consciência que a revolução sexual, como a liberação
da libido, tem levado as civilizações para a decadência.
O prazer é o dom do criador em favor da vida. Não podemos
ser contra o sexo, nem contra o prazer, muito menos contra o corpo. Somos
contra o prazer absolutizado, o "prazer sem consciência".
O prazer desordenado tem causado injustiça, violência, doença
mental, desagregação da personalidade. Já o prazer
ordenado, vivido com gratidão e consciência, é meio
saudável de doação, criatividade, entusiasmo e gosto
de viver.
4. Conhecimento sem caráter. Tal conhecimento é apenas erudição
sem sabedoria, sem mudança de vida, sem a conscientização.
O conhecimento sem caráter começa com o costume perverso
de "colar na escola", de conhecer para aumentar o poder, é
a simbiose entre conhecimento e opressão, ciência e manipulação,
"saber sem sabor". Mas, conhecimento sem caráter é
ambição por poder, busca de prepotência, cujo fim
é "conquistar o poder, aumentar o poder, assegurar o poder"
(R. L. Shinn). Conhecimento sem caráter é o mesmo que dizer:
"saber é poder". Tal saber não serve à
vida, mas à morte.
5. Economia sem ética. É o livre mercado, onde o dinheiro
é a "nova providência" e a propaganda a "nova
evangelização", com romarias pra Miami e New York,
onde os sacerdotes são os banqueiros e os empresários e
a fé se concentra na caderneta de poupança, nas bolsas de
valores, cujos templos são os bancos, os motéis e os shoppings.
O mercado tomou o lugar da religião e comanda a sociedade secularizada
com impiedosa massificação das mentes, economia sem ética
é levar vantagem em tudo, é vender e lucrar, é mais
valia, consumismo. O crescimento econômico sem ética é
o pior monstro que a terra já viu. Ele é a fonte da violência,
miséria, fome, prostituição, poluição,
neurose e pânico. Lucrar, ser o mais forte, vencer, eis a lei da
economia sem ética.
6. Ciência sem humanidade. É a ciência nas mãos
de uma minoria que tudo sabe e a todos controla. È a ciência
a serviço do poder e da violência, do racismo e do neoliberalismo.
Ciência sem humanidade é ciência sem consciência,
desligada dos valores e da fé, ciência a serviço de
interesses egocêntricos. Em nome desta ciência a poluição
gera a morte da terra, os fetos são "matéria descartável",
os pobres são os culpados do subdesenvolvimento, a clonagem é
a substituição do amor sexual, do casamento e da família,
a informática é meio de dominação do mercado.
É a ciência a serviço das ideologias e interesses
pessoais e corporativistas: "Sua ética é o interesse"
(P. De Oliveira).
7. Religião sem sacrifício. É a religião sem
testemunho, prédica sem prática, oração sem
fraternidade, o culto só dos lábios. A pior das corrupções
é a corrupção religiosa, onde se usa o nome de Deus
e se manipula o povo, em busca de lucros. A religião virou mercadoria
e até safadeza. Religião sem sacrifício, é
religião sem cruz, sem o seguimento de Cristo pobre, casto e obediente.
É pregar sem viver o que se fala, é ajustar a Palavra de
Deus segundo nossos interesses, elevar nossos caprichos à esfera
de vontade de Deus. Religião sem sacrifício é querer
que Deus faça o que nós queremos. Religião sem sacrifício
é dizer uma coisa e fazer outra. É querer Deus sem se envolver
com o mundo.
Dom Orlando Brandes -Arcebispo de Londrina
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