Mensagem do Pe. Zezinho: Coragem de falar
Jesus Cristo não fundou colégios, creches, asilos ou orfanatos.
As pessoas que dizem crer n' Ele não podem afirmar o que alguns
cristãos evangélicos e católicos às vezes
declaram: "Só creio em quem faz o que prega". A coerência
não consiste em fazer tudo o que se prega, mas em caminhar na direção
da verdade que se anuncia. Podemos e devemos denunciar o tráfico
de drogas, mesmo que não trabalhemos diretamente com os toxicômanos.
Devemos exigir mais educação para as crianças, ainda
que não fundemos escolas nem demos aulas.
Um político que me afirmava; "Não acredito numa Igreja
que não faz o que prega para os outros". E eu lhe disse; "O
senhor também não faz o que prega. Votou por mais verbas
para a educação, mas nunca deu aula". Há muitas
coisas que não fazemos porque não podemos ou por não
ser nossa vocação específica.
Existe a vocação de agir calado, a de falar agindo e a de
ensinar para que outros façam ou alertar para que não façam.
Quando se fala, porém, não se pode caminhar na direção
oposta à da mensagem. Jesus qualifica tal atitude como servir a
dois senhores. Mas cuidado com a tolice disfarçada de radicalismo:
não só aquele que faz é que pode falar. O repórter
fala da notícia, mas não é sua função
fazê-la. Nem por isso seu trabalho é menos válido.
Faz muito quem se preocupa com o problema da aids ou do câncer,
ainda que não recolha em sua casa aidéticos e cancerosos.
É claro que quem fala e age tem até mais autoridade, mais
isto não significa que profetas e pregadores sejam pessoas inúteis
ou incoerentes. Jesus defendeu o direito das crianças, mas nunca
construiu uma creche. Contudo, é n' Ele que se inspiram milhares
de pessoas que fundaram e mantêm creches ou que lá trabalham.
Jesus foi mais importante do que seria se tivesse apenas fundado instituições
de caridade. Porém, mesmo que quisesse, não poderia ter
feito pessoalmente tudo o que pregou, porque era de carne e osso e tinha
limites físicos. Podia ter feito tudo, mas não o fez. Entretanto,
ensinou a fazer.
A Igreja não pode perder a coragem de falar. Mesmo que a acusem
de falar sem agir. O fermento não faz o mesmo que a massa, mas
está nela e a faz crescer. Assim é o profeta legítimo.
Porque muitos já falaram, anunciaram e denunciaram, muita gente
fez e repensou o que fazia. O mais estranho de tudo é que quem
condena a Igreja por não agir vive de falar em nome do povo. Se
os políticos podem falar, porque não os religiosos? Existe
uma fala que nos condena, outra que nos qualifica. Pensemos nisso...
Falar é uma vocação muito nobre. É preciso,
no entanto, mais do que fazer aquilo que se anuncia, apostar a vida na
verdade que leva as pessoas a agir. A fundadora de uma congregação
religiosa, por exemplo, pode jamais ter trabalhado em um hospital, mas
motivou milhares de mulheres a ajudarem o próximo em hospitais.
E então? Foi profetiza ou não?
Repensemos nossas frases de efeito. Às vezes elas soam bem, mas
não são verdadeiras. Falar a favor de alguém ou contra
algo é uma belíssima vocação cristã.
Por sinal, muito difícil. Por isso é tão incompreendida.